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Futebol de rua é a essência do futebol no seu estado mais puro, sendo reconhecida a sua importância na formação de alguns dos melhores jogadores da história do futebol mundial. Mas porque é que o futebol de rua teve e tem esse papel tão preponderante na formação de jogadores talentosos?

Na rua, as crianças e os jovens encontram o seu “habitat”, encontram o lugar onde podem jogar livremente, apenas pela paixão e emotividade que o desporto nos permite experienciar. É no futebol de rua onde têm muitos mais estímulos com bola comparativamente com a maioria das”academias de futebol”. Num determinado intervalo de tempo de futebol de rua, os jovens têm grande parte desse respetivo tempo destinado ao empenhamento motor e contacto com uma variabilidade de circunstâncias que lhes permite fomentar aspetos no seu jogar. Já nas academias de futebol, muitas vezes os jogadores seriam trabalhados de forma “mecanizada” para corresponderem ao modelo de jogo do treinador, a maioria dos exercícios seriam regidos por regras, não iriam promover tanto a autonomia do jogador e o tempo de atividade seria bem mais diminuto.

“Não acredito que a habilidade tenha sido, ou será, o resultado de treinadores. É o resultado de um caso de amor entre a criança e a bola. ” Roy Maurice Keane

Agregado a esse estímulo com bola, junta-se o fator criatividade! A rua é o local onde os jovens atletas desenvolvem a criatividade e capacidade individual, obrigando-os a descobrirem e inventarem novos caminhos e reinventarem as suas capacidades. A variabilidade e diversidade de contextos, desde o piso irregular, a bola mais despejada, os múltiplos posicionamentos dentro do jogo, até aos carros que passam na rua e às paredes que servem como tabela para fintar o adversário, melhoram a capacidade cognitiva e motora do jovem jogador em relação ao comum jogador formado em clube. Estas múltiplas possibilidades trazem à criança uma imprevisibilidade de ações brutal. Desta forma, a criança é obrigada a desenvolver mecanismos de resposta, acabando não só por evoluir cognitivamente como tecnicamente e fisicamente. Outro fator fundamental está associado à emotividade do futebol de rua. Estas emoções despertam no jogador uma competitividade e busca incessante pela vitória, que por outro lado, também aumentará a intensidade do jogo a ser disputado. Relacionado com isto, está a quantidade elevada de tempo de prática que os jovens têm possibilidade de ter, comparativamente com aquilo que têm nos clubes.

“Quando uma criança joga na rua e cai, magoa-se: e muito. Por isso, quando cai uma vez, o cérebro dela vai criar mecanismos de defesa para não cair outra vez. Esses mecanismos têm que ver sempre com espaço (…) quando ela entra em contacto físico, corre o risco de cair. Por isso, e para evitar o contacto físico, tem de criar espaço, tem de fugir ao confronto com os outros jogadores. Isso é muito importante, porque no futebol decisivo é fundamental saber criar espaço. (…) A imprevisibilidade obriga as crianças a desenvolverem mais mecanismos técnicos. Isso chama-se motor learning e é uma coisa que não se aprende nos relvados” Ruben Jongkind em entrevista ao Maisfutebol

Jogar na rua permite ao jovem uma série de possibilidades diferentes! Como consequência disso, começa a haver uma gradual evolução dos jogadores de rua no que se refere às competências técnicas, como o drible, remate ou passe… Para além disso, também adquirem atributos psicológicos e sociais, porque é na rua que se transformam personalidades, onde a responsabilização é palavra de ordem e onde se formam jogadores e homens competitivos por natureza. Porquê? Porque se concluis mal um lance, um dos jogadores mais velhos cai-te em cima; quando a bola é chutada com demasiada força e vai parar ao quintal do vizinho, lá tem que ir o jogador subir o muro para ir buscar a bola ou até baixar-se para ir buscar a bola debaixo do carro.

Associado a isso, surge também uma nova situação, a proteção excessiva dos pais quando, por exemplo, um jogador não é convocado ou se lesiona, tirando todas as possibilidades de o jogador se desenvolver enquanto pessoa para jogar futebol. Lembrem-se que os atletas também são pessoas, e se não tiverem a personalidade necessária, dificilmente chegarão a profissionais. No futebol de rua, como é normal, os jogadores nem sempre tomam as melhores decisões, mas esse é um dos principais pontos de aprendizagem que o futebol de rua nos oferece. A melhor forma de um jogador evoluir é com o erro! Segundo Daniel Coyle, autor do livro “The Talent Code”, a aprendizagem acontece 10 vezes mais rápido quando há um erro para corrigir.

Apesar de todas estas diferenças entre o futebol de rua e as academias de formação, acredito que a grande diferença é o jogo, onde cada jovem jogador tem liberdade para decidir e aproveitar o seu talento, ao invés de receber constantes instruções do seu treinador, que condicionam a sua maneira de jogar.

Quem me ensinou a jogar? A bola… Maradona

Se o futebol de rua “dá” estes benefícios todos, porque estamos a perdê-lo? Há diversas razões, mas as que me parecem mais evidentes são, como referido, o excesso de proteção dos pais, que têm medo dos possíveis riscos que a rua oferece, o aparecimento de novas tecnologias, o sedentarismo dos jovens, a evolução da urbanização e o próprio surgimento das academias vistas como algo positivo, seja qual for a idade do jogador.

Algumas medidas estão a ser tomadas em relação a esta escassez de jogadores vindos do futebol de rua. Por exemplo, o FC Bayern Munique já só aceita nas suas academias de formação jogadores a partir dos 12 anos, e, por outro lado, o AFC Ajax e o FC Barcelona estão a levar os jovens da formação com idade inferior a 12 anos a experienciar o futebol de rua, literalmente.

“Sinto, logo existo, por isso penso” Damásio

A criança começa sempre por sentir o futebol, só depois começa a pensá-lo. Se não sentir o jogo, jamais poderá pensá-lo de forma completa e holística.

A solução passará por devolver o futebol de rua aos jovens, de lhes oferecer a liberdade de criação, inovar e adaptar o treino a características comuns do futebol de rua, oferecer espaço aos jovens para errar, fomentar a criatividade através do treino e garantir sempre o lado competitivo e apaixonante do futebol. Só assim nasce o talento!

Nota: Este texto não pretende de forma alguma criticar o papel dos clubes na formação de atletas (que também são reconhecidamente importantes), mas sim exaltar os benefícios do futebol de rua.

Redigido por: Diogo Runa